Ainda me lembro quando a minha mãe comprou o disco Thriller. Disco mesmo, de vinil, não CD. Na época nem se sonhava com MP3 e só havia computadores em lugares em que se havia muito dinheiro. O ano era 1983. A internet não existia, assistir aos Fantástico era um bom programa de domingo e havia coisas que prestassem na televisão. As rádios eram boas, a inflação era altíssima e um general careca chato chamado Figueiredo era o presidente. Eu tinha 7 anos e frequentava a pré-escola.

  Nesse mesmo dia, a minha mãe comprou um aparelho de som stereo com imensas caixas de som de 100 Watts cada uma. Ainda tenho esse aparelho, o toca-disco pifou há tempos, mas o toca-fitas e o rádio funcionam perfeitamente e a gente já conectou um CD player há anos.

  Eu lembro que eu dancei animadamente os clássicos de Thriller e que fiquei louca pelo Michael Jackson. Ficava ouvindo as músicas repetidamente junto com a minha irmã mais velha.

  Michael Jackson era o ídolo de todos nós, até a minha mãe quarentona curtia. Os moleques na escola queriam uma jaqueta igual a que ele usava no clipe de Beat It. Michael era o máximo. Ele havia inventado uma nova música e um novo jeito de dançar.

  Aquele era o auge do Rei do Pop. Eu pedia para a minha mãe me comprar tudo que tivesse a cara dele, revistas, buttons, pôsteres, tudo, até álbum de figurinhas.

  Depois desse sucesso todo ele sumiu. Demorou anos até que ele reaparecesse. Ele ressurgiu mais branco e com a cara meio esquisita. Para falar a verdade, ele estava bastante andrógino, parecia até a Diana Ross. As pessoas começaram a comentar sobre as esquisitices dele e sobre o monte de plásticas que ele havia feito no rosto. Mas o novo disco (disco de vinil, ainda), Bad, era bom demais. Eu tinha Bad em fita cassete e ficava ouvindo enquanto brincava. Eu já tinha um pouco mais de maduridade, 12 aninhos, e já tinha começado a ouvir rock e a tocar violão. Sabia o que era boa música. As rádios ainda prestavam e um bigodudo chato e com fama de corrupto era presidente. A inflação era maior ainda. O ano era 1987.

  Com o tempo fui deixando de me ligar no som do Michael Jackson e ele foi ficando cada vez mais estranho. Sua pele foi embranquecendo ainda mais e seu rosto foi ficando deformado. Ele não parecia ter sexo, raça ou idade. Daí ele lançou Dangerous, que também foi um sucesso. Mas,sinceramente, eu não gostei muito desse CD.

  Eu ainda me lembro quando vi o clipe Black Or White pela primeira vez no Fantástico. Acredito que tenha sido uma daquelas ocasiões em que o lançamento era mundial. Achei o clipe fraco, sem pé nem cabeça. Um monte de gente dançando coisas que não tinham nada a ver e uma introdução chupada do clipe de “We're Not Gonna Take It”, do Twisted Sister. A mistura de danças e estilos diferentes me pareceu bastante forçada. Era tudo muito grandioso, mas não tinha nada a ver com a música. A estética era exagerada. Na época, eu já não ligava mais para o som do Michael, pois estava ouvindo Heavy Metal das antigas. O Metallica tinha acabado de lançar o Black Album, o Nirvana estava começando a estourar e eu tinha comprado um vinil usado do Vol. IV do Black Sabbath. O ano 1991, Collor era presidente e a "Era Grunge" havia começado.

  Eu também me lembro do irmão pequeno de uma amiga minha da escola: quando ele viu o clipe de Black Or White ele falou “Nossa! Pensei que era uma mulher!”

  Parecia que Michael Jackson tinha perdido parte de seu brilho. As músicas eram boas, mas, depois de uma seqüência de trabalhos brilhantes (Off The Wall, Thriller e Bad), a gente estava esperando muito mais. As pessoas ficaram meio desapontadas, mas, ainda assim, compraram e gostaram do CD.

  Durante a turnê de Dangerous, em 1993, houve as primeiras denúncias de abuso sexual de menores. Eu não acreditei. Michael Jackson, para mim, era uma criatura assexuada e infantil, incapaz de fazer mal a uma mosca. Nessa época eu já era adulta, tinha acabado de completar 18 anos.

  Até aí, eu realmente acreditava na inocência de Jacko, mas ele então fez um acordo extra-judicial com a família da criança supostamente abusada, um tal de Jordan Chandler. Foi nesse momento que eu comecei a acreditar que ele era, de fato, uma pessoa que abusava de crianças. Se quem não deve não teme, por que ele deu milhões de dólares para a família do garoto calar a boca?

  Como uma admiradora do trabalho de Jacko, fiquei decepcionada, e resolvi não prestar mais nenhuma atenção aos trabalhos do cara.

  Michael Jackson, que era só considerado excêntrico, passou a ser considerado pedófilo. Pessoas que gostavam dele passaram a detestá-lo. Suas esquisitices passaram a ser vistas com desconfiança e maldade. MJ acabou por se tornar até objeto de piadas. Todo o tipo de piadas, coisas como “MJ não come Lacta, só come Garoto”.

  Seus CD's seguintes venderam bem, mas não o suficiente para cobrir os gastos com a produção.

  Para quem não sabe, os músicos ganham a grana dos CD's adiantado, como se fosse um empréstimo. Se eles não venderem o suficiente para cobrir esses gastos com produção, e um monte de outras “coisinhas” que as gravadoras inventam, o artista acaba é por dever dinheiro às gravadoras. Horrível não é? Essa é a lógica das gravadoras: quando maior os gastos com a gravação, maior a sua dívida e mais você tem que vender para pagá-la. Isso é o que eles chamam de “recoupable expenses.” O lucro do artista é o que resta depois de a gravadora e a editora terem repartido o bolo. É... É ruindade desse povo do music business, mesmo. Por isso que eu sempre comparo os executivos das gravadoras ao Doutor Destino do Quarteto Fantástico ou ao Imperador Palpatine. Eles são maus, mesmo. Nenhum deles presta. Querem sugar os artistas e depois jogar o bagaço fora.

  Por conta desses gastos todos, os milhões de CD's que Michael vendeu não cobriram as tais das “recoupable expenses”. Ele ficou devendo a maior grana para a Sony.

  Somando-se a isso, MJ teve problemas com Tommy Mottola, então presidente da Sony, também conhecido como “Motorola” ou ex da Mariah Carey. Jackson teve também problemas com editoras de música. Isso tudo, além de um estilo de vida esbanjador, lhe trouxe centenas de milhões de dólares em dívidas.

  E Michael foi ficando cada vez mais recluso. Em 2003 estreou um documentário “Living With Michael Jackson”, que mostrava um monte de coisas bizarras, entre as quais MJ pendurando o filho mais novo da sacada de um quarto de hotel.

  No mesmo ano veio mais uma acusação de abuso sexual infantil. Dessa vez era o garoto que aparecia no tal documentário. Eu logo achei a história esquisita. Como é que os pais do garoto deixavam ele e sua irmã dormirem na casa do Michael Jackson? Se eu tivesse um filho, eu nunca o deixaria dormir na casa de um homem mais velho, com idade para ser pai dele, e que tivesse um comportamento tão estranho quanto o do Michael. Pensei: a mãe desse moleque quer é grana.

  E parece que ela queria era isso mesmo. MJ acabou por ser absolvido. Depois dessa, ele pegou seus filhos e se mudou para o distante Bahrein, onde viveu recluso até uns dois anos atrás . De vez em quando víamos fotos esquisitas dele com roupas que pareciam vestes de mulheres xiitas. Também víamos fotos de seus filhos, todos brancos, com máscaras.

  Era estranho que um cara de família negra tivesse todos os filhos brancos. Isso pode acontecer uma vez numa prole, mas três?

  Tudo isso causava ainda mais rumores e fofocas. A música passou a não ser mais importante. Agora, para o público, o que importava era a próxima "esquisitice" ou "novidade" do Michael.

  Nesse meio tempo eu até participei de um ou dois tributos ao Rei do Pop. Em um deles, toquei guitarra, solando Beat It. É eu já soube tocar Beat It, nota por nota. Sou fã roxa de Van Halen, como todo guitarrista que pegou numa guitarra durante e depois dos anos 80. Para quem não sabe, a linha de guitarra de Beat It, que é justamente o que a faz tão Rock'n'Roll , é do mestre Edward Van Halen.

  Ano passado, em 2008, Jacko completou 50 anos. Nos dias de hoje ter 50 anos não é ser velho. Tem caras com quase 60 ou 70 anos detonando por aí. Keith Richards, que é aparentemente imortal, tem uns 65. Mick Jagger, Ozzy, e toda a galera original do Led Zeppelin e do Black Sabbath, já passaram dos 60 anos. David Coverdale, do Whitesnake, tem uns 57, ainda é bonito e canta para cacete. Madonna tem 50 anos e arrasa. Vi um cantor chamado Rick Springfield cantando do alto de seus 60 anos e o cara estava bonito e cantando muito.

  E MJ tinha 50 anos, toda a grana para ter um estilo de vida saudável e viver muito. Mas ele não viveu

  Eu estava indo para uma aula de defesa pessoal quando ouvi a notícia de que ele tinha tido uma para cardíaca. Estranhei. Achei que fosse piada. Afinal MJ era um ícone e ícones não ficam doentes ou morrem.

  A gente até fez piada na aula. O instrutor falou: “vamos fazer umas flexões agora para o Michael Jackson”. Todo mundo riu. Ninguém realmente achava que ele ia morrer.

  Como eu falei: ícones não ficam doentes ou morrem.

  Depois da aula eu parei num posto de gasolina para comprar Coca Cola e Cerveja. Perguntei para o frentista se MJ tinha morrido. Ele não soube me responder, mas uma mulher que comprava cigarros disse que sim. “Ele não resistiu.”

  Peguei minha caixa de longs necks e minha Coca Cola e voltei para casa em transe. O impossível tinha acontecido: ícone pop havia morrido.

  Liguei a TV e assisti a todos os noticiários. Eu não consegui dormir direito. Nem as long necks me ajudaram a pegar no sono. Eu me sentia mal. Parecia que tinha perdido um amigo.

  E, quer saber de uma coisa, ele foi uma presença tão constante na vida daqueles que viveram os anos 80 que ele era como se fosse um amigo, ou um membro da família.

  E olha que eu não sou uma pessoa “inocente”, virgem de sofrimentos. Eu enterrei ambos os meus pais cedo. A morte da minha mãe foi traumática e meu pai morreu quando eu era criança. Já perdi muita gente, parentes e amigos, mas a morte é uma coisa para a qual a gente nunca está preparado. Nunca dá para se acostumar com esse evento. É horrível ter uma pessoa sempre por perto e, de repente, ela some. Fica um vácuo no lugar. Um vácuo que nunca vai ser preenchido.

  No caso do Michael, ficou um vácuo cultural. Não há ninguém tão brilhante que possa ocupar o seu espaço. Há várias pessoas que cantam muito e são ótimas compositoras, mas MJ era completo. Possivelmente foi o melhor dançarino que já existiu, além de ser um cantor incrível. Sua musicalidade era fantástica.

  Há um monte de gente que é metida a cantar e a dançar. Mas quantos se comparam a ele nesses dois quesitos?

  Fiquei o dia seguinte da morte de Jacko meio de luto. Vi um monte de vídeos no YouTube e fiquei pensando em que como ele era um gênio torturado.

  Ele criou um personagem e acabou se fundindo com ele. Ele foi massacrado pela sociedade racista americana, que possivelmente não aceitou bem o fato de um negro ser mais bem-sucedido que qualquer branco. Sua genialidade e loucura o levaram a ficar dissociado da realidade. Até mesmo sua família mostra sinais de desestruturação. Ele se dizia orgulhoso de ser negro, mas aparentava ser branco. Jackson parecia ter parado na infância e se recusava a crescer.

  Jackson foi vítima de seu sucesso, de uma sociedade hipócrita, de uma família desfuncional e de sua própria genialidade. Uma pessoa nascida com tantos dons precisa de amor para crescer como artista e pessoa, e acho que ele jamais teve isso.

  Ele é mais uma das personalidades trágicas vindas do mundo da Motown, a gravadora de Soul Music dos anos 60, na qual ele iniciou sua carreira. Sei de pelo menos mais dois fantásticos cantores da Motown que tiveram mortes prematuras e vidas trágicas: Marvin Gaye, que morreu assassinado pelo próprio pai, e Florence Ballard, que inspirou em parte o filme Dreamgirls.

  Será que a genialidade freqüentemente vem acompanhada da tragédia? Não sei. Só sei que o boato na internet é que o moleque que acusou MJ de molestá-lo sexualmente agora está se retratando. O cara, agora com 28 anos, disse que o pai foi quem o obrigou a dizer tudo aquilo. Para piorar, parece que ele está processando o próprio pai por tê-lo agredido fisicamente! O futuro dirá o que realmente aconteceu. Mas o que ficará é o legado da música de Michael Jackson.

 

RIP MICHAEL JOSEPH JACKSON - PODEM DIZER O QUE FOR, MAS SUA MÚSICA É ETERNA

 

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