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MORDENDO A MÃO QUE TE DÁ COMIDA?

Por Mathew Danie

Original: http://musicdish.com

Tradução: Ana Luiza Brown

A indústria musical acabou ganhando pelo menos uma coisa nesses tempos em que vem sendo atacada pela tecnologia digital e em que vem batalhando para se manter de pé na nova economia da informação.

Quando Robbie Williams falou numa feira de música em Cannes que o compartilhamento de músicas era uma “ótima idéia”, os executivos surtaram. Eles ficaram chocados ao ver seus esforços bombardeados por aquilo que poderia ter sido percebido de início como uma gafe. Williams, entretanto, reiterou que antes de negociar um contrato de 80 milhões de libras, ele havia perguntado aos cabeças das gravadoras o que eles pretendiam fazer a respeito da pirataria, e daí ele concluiu : “não ouvi nada de concreto. Os cabeças das gravadoras não sabem o que fazer a respeito.”

 

Teria sido essa manifestação um manobra calculada que Robbie Williams divulgasse uma imagem mais próxima ao da do cidadão comum? Uma imagem desse tipo é bem melhor do que aquela de artista milionário que fica isolado no topo de uma torre de marfim. Vejamos o caso do Metallica, que lutou judicialmente contra o Napster e contra a sua base de fãs nas universidades, ao acusá-los todos de pirataria em 2000. Mesmo que estivesse certo do ponto de vista legal, a banda Metallica simplesmente se jogou na contramão da auto-estrada da informação e acabou por ser atropelada pelo peso coletivo da própria sub-cultura que a popularizou e que agora rotulava seus membros como parte de uma máquina corporativa que ignorava os ideais originais do Rock.

 

Tanto o Metallica quanto Robbie Williams tinham as costas quentes de seus contratos com gravadoras, mas acontece que suas atitudes foram muito diferentes quando lidaram com o mesmo problema. Jay Bermam, CEO da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, afirmo que “há muitos artistas por aí que não assinaram contratos como o de Robbie Williams.” Berman acrescentou que 600.000 profissionais do meio musical se arriscavam a perder seus empregos por causa da pirataria galopante.

Sim, Berman possivelmente está certo ao afirmar que muitas pessoas perderão seus empregos quando o novo modelo de negócio emergir. Mas, como sempre, isso vai abrir portas para outros que se adaptarão com mais facilidade e que poderão prosperar com novas oportunidades. Isso tudo nos faz perguntar quem perderá mais no novo modelo econômico: as forças criativas na indústria musical ou os componentes de sua infraestrutura? Ou, olhando sob um ponto de vista diferente, quem ganha mais com o modelo atual, o artista ou a infraestrutura que se alimenta da arte? Esta pode ser a pergunta só pode ser respondida ao se diferenciar a distribuição e a infraestrutura do produto da criação.

 

John Perry Barlow, que trabalhou como letrista para a banda Grateful Dead, se manifestou em relação a isso em seu famoso manifesta intitulado “Vendendo Vinho Sem Garrafa – A Economia do Pensamento na Internet”. Nesse artigo, ele se reporta a uma flha crucial no meio tradicional de coleta de direitos autorais na era da tecnologia digital: “uma pessoa não é paga por suas idéias, mas sim pela habilidade de colocá-las na realidade. Na prática, o valor não está na conveniência e não no pensamento em si. Em outras palavras, a garrafa estava protegida, não o vinho.” Como bem observou Barlow: “A tecnologia digital descolou a informação do plano físico sobre qual o direito de propriedade sempre esteve definido. "

O valor e os lucros sempre estiveram no meio físico e na distribuição da música, os quais sempre foram contralados pelas gravadoras, por motivos óbvios. Com o advento da tecnologia digital, essa barreira foi quebrada. As gravadoras se depararam, em conseqüência disso, com uma situação onde seus maiores lucros, que sempre foram obtidos por meio da manifestação física da obra e por sua distribuição, estão ameaçados.

A conjuntura atual na indústria da música encontra similaridade com a da Igreja Católica no advento da imprensa, quando os seus conhecimentos e seu poder foram ameaçados pela prensa de Johannes Gutenberg. Quando a Igreja afirmou, nessa ocasião, que a nova invenção era profana, na realidade ela estava querendo mesmo era manter seu poder. Assim, vemos semelhanças nas duas situações apresentadas, pois, na indústria musical, as gravadoras afirmam que quem se vê mais ameaçado com as novas tecnologias é o artista.

Ao invés de estarem trabalhando em novos meios de distribuir música, as companhias e seus advogados, que muito possivelmente não entendem nada da economia do novo modelo de informação, estão tentando reforçar as leis de direitos autorais que protegem os interesses dos editores ao invés de proteger os interesses dos criadores.

O direito autoral está simplesmente sendo usado para proteger a distribuição da música, mas “queimar” os Napsters “na fogueira” não acabará a distribuição, mesmo que ilegal, de música no meio digital.

O que está ocorrendo precede o novo modelo de negócio, e as mentes fechadas pelo “clero” dos executivos serão meramente um obstáculo temporário até que a inevitável evolução ocorra, com acesso musical em massa como a última recompensa e, com ele, uma expansão inimaginável do mercado. A internet é o veículo de distribuição mais incrível que já existiu e torna possível o compartilhamento de um infinito número de músicas que existem no mundo para um imenso número de pessoas. O que ocorre, é que a indústria ainda quer controlar o nosso acesso à música e, assim, possa nos fazer engolir os artistas que ela acha que podem lhe fazer mais dinheiro. Bem, a Internet mudou tudo isso, e o gênio não pode voltar para dentro da lâmpada que a indústria vê como a caixa de Pandora.

Existe um consenso de que as gravadoras se apropriam dos lucros e de que o músico, subjugado, não fica com nada. Essa imagem tem sido reforçada por novos formatos nas últimas décadas, onde o consumidor paga um preço mais caro pela música e o artista ainda recebe o mesmo que recebia antigamente. De uma forma quase que cármica, um novo formato apreceu, mas dessa vez como uma reação das pessoas comuns, e não da indústria, o MP3 e a distribuição on-line, o que escapou do controle da indústria. Acrescente a isso que o fato de que o músico não sofre tanto quanto a indústria “diabólica”, e isso tudo não deixa peso na consciência de quem faz download ilegal.

Miles Copeland, antigo empresário do The Police e dono de selo ( ironicamente, sua primeira gravadora era chamada Illegal Records! ), em um artigo na revista Music Connection onde tenta mostrar que as gravadoras não são gananciosas, ridiculariza a noção de que CDs são muito caros e que alega que 19 de 20 discos lançados nem mesmo se pagam. Interessante saber disso, especialmente quando se admite inadequação do produto ou falhas em sua divulgação! Vejamos que ele acaba por admitir que seu produto deve ter problemas – o que nos leva a mais uma questão: por que obrigar o artista a botar mais músicas do que as aceitáveis num CD e depois empurrar o produto para o consumidor ao invés de oferecer menos músicas, só que individualmente? A resposta a essa pergunta nos leva um modelo de mercado mais plausível, com distribuição e preços variados, os quais acabariam por aliviar as gravadoras do peso de investir muito em algo que já se sabe ser um fracasso.

Com a internet e um controle fácil do inventário das músicas de cada selo, poder-se-ia vender cada canção por um preço, ao invés de vender todas por um mesmo preço fixo. Esse preço variável seria estabelecido conforme a popularidade, a qualidade perceptível, ou algum outro critério a ser determinado. E, com um volume grande de músicas por um preço mais acessível, as gravadoras poderiam reduzir os seus dividendos para que os artistas ganhassem mais. Atualmente, os consumidores são obrigados a pagar pelos fracassos da indústria, a fim de compensar as perdas geradas por CD's que não vendem.

Agora estamos no ponto de perder uma geração inteira que nunca pagou pela música que consumiu. Alguns pensam que é direito deles, outros pegam o que podem. Em muitos países as falhas na distribuição no controle do inventário das músicas das gravadores levam as pessoas a obter ilegalmente a música que querem, e em muitos lugares do mundo o direito autoral nem ao menos é respeitado. Muito em breve estaremos armados com todos os tipos de geringonça tecnológica, iPods, e a Philips, a Microsoft, a Nokia e todo tipo de empresa de tecnologia de convergência contribuirá de alguma forma para essa tecnologia de áudio, mesmo quando a obtenção de áudio ilegal deveria ser proibida.

Digamos que você ouça essa música fabulosa no rádio (que poderia ser rádio de internet, mas aí é outra história,) e você sabe que essa canção está somente a um clique de distância enquanto você usa o seu computador em casa, na escola ou no trabalho. Seu iPod está pedindo para você ouvir essa música enquanto que você mal pode esperar para ir à alguma loja comprar o CD. Se alguém realmente gosta de música, a tentação é grande e bastante real para que se entregue a ela. Está tudo um clique de distância e não se perde nada fazendo o download. Essa opção é exercida por todo tipo de pessoas, não vamos nos enganar a respeito disso.

Reconhecendo esta tendência, as gravadoras montaram suas lojas on-line, mas todas possuem restrições ao seu uso e um inventário de músicas bastante pequeno. As atitudes inadequadas da indústria acabaram por fazer que as opções on-line de download gratuito ficassem muito mais atraentes para o consumidor ávido por música.

No mundo de coisas tangíveis é universalmente aceito que pegar algo que não lhe pertence é errado. Entratanto, o universo digital envolve um rota de saída para essa questão moral: se o produto é tirado de um terceiro, então o dono não o perde de verdade, e, agora, você e o verdadeiro dono podem possuir o produto. É algo como roubar do ladrão. Não há como se fazer esse tipo de analogia com produtos tangíveis. Barlow descreve essa situação como “um tipo de desafio muito novo”, que junta distribuição complexa, assim como questões morais, legais e culturais que leis antigas e modelos de negócio ultrapassados não conseguirão superar.

Não se está fazendo o suficiente para explorar os diversos modelos de negócios ou para se aceitar o fato de que a propriedade intelectual é encarada de forma diferente em diversas culturas. Há lugares na Ásia em que a indústria musical está sendo dizimada pela pirataria, com álbuns sendo tratados meramente como veículo de publicidade para artistas, com o dinheiro de verdade sendo feito por tours, concertos, comerciais, patrocínios e outras atividades. Então, será que há alguma maneira de se ganhar dinheiro com novas formas de garrafas sendo introduzidas no mercado e com o vinho sendo dado de graça? Há exemplos desse tipo de modelo de negócio, que é mais ou menos gratuito, com a TV aberta, revistas gratuitas, rádio, telefonia gratuita, entre outros.

Um novo modelo de negócio está se desenvolvendo de forma dolorosa, mas não se pode deixar que ele cresça de maneira descontrolada, sem uma avaliação sincera, aberta a opções radicais. Se isso não for feito rapidamente, o ecletismo e a variedade da música vai morrer quando artistas menos conhecidos que Robbie Williams inevitavelmente mudem de profissão para sobreviver. Será que nós realmente queremos ser deixados com poucos artistas, como Mariah, Britney, Christina, e... Robbie? Ou talvez, isso tudo pode ser o plano final de dominação das gravadoras... Isto é, se eles ao menos tivessem idéia do que está acontecendo.

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