ENTREVISTA COM O LEELA - PARTE 2 - A História Por Trás da "Rádio Blah" , o Mercado Fonográfico e o Download de MP3

 

Rodrigo: e a gente fez um show com o Kid Abelha em Fortaleza que foi um dos shows mais legais que a gente fez. Foi o máximo! A gente dividiu o palco no final. A paula chamou a gente no palco para....

Bianca: cantar a última música. Dar tchau para o pessoal.

Rodrigo: o Bruno foi também muito legal.

Bianca: e lá no Rio a gente acabava sempre se encontrando em festas. A audição do disco novo do Dado (Villa-Lobos). Aí fomos todos para o estúdio. Então contraternizamos. Então nós viramos amigos todos.

Rodrigo: apesar de não ser uma influência direta, que a gente ouviu para montar a banda, que a gente escuta para se inspirar, mas eu vejo semelhanças. Entendo as pessoas. É música pop, canção pop, tem uma mulher cantando.

Bianca: uma voz aguda.

Rodrigo: exatamente.

Dogzsongs: agora há uma onda mais de vozes graves...

Rodrigo: a gente já sofreu críticas. O Kid Abelha também sofreu críticas. É porque no Brasil tem muito essa coisa das cantoras (nota da redação: o Rodrigo emposta mais a voz, dando mais carga dramática) com aquela voz...Ou então a Elis, com aquela perfeição... Mas a gente adora isso. Sair do óbvio, do comum.

Dogzsongs: isso é muito legal. É a personalidade, a coisa diferente. Está todo mundo querendo soar como Cássia Eller e vocês vêm com uma coisa diferente, com vocalizações agudas, canções mais pop...

Bianca; é porque eu também nunca fui tipo "ah, eu quero ser uma cantora que nem essa...". Eu tenho o meu estilo de cantar, o meu estilo de compor. Eu e o Rodrigo, a gente nunca se espelhou em um artista em especial.

Dogzsongs: isso é muito legal. E o cover do Lobão?

Bianca: Rádio Blah. Rádio Blah é uma música que foi composta pelo Lobão, o Tavinho Paes, e o Arnaldo Brandão, que o pai do Rodrigo. E a gente quis fazer uma homenagem a ele, regravando essa música.

Rodrigo: A gente foi no show (do Arnaldo Brandão). Do Lobão não tinha nada (na época). Ele não tinha voltado com o acústico (ainda).

Bianca: e até a gente tocou nesse show com o seu pai também, tocando Rádio Blah.

Rodrigo: foi Rádio Blah?

Bianca: e a gente foi no show e eu falei "essa música é muito legal. E a letra é ótima. A gente podia gravar ela no nosso disco." E o Rodrigo (falou): "legal". Aí no mesmo dia, à noite, a gente foi para um lugar clássico do Baixo Leblon que é a Pizzaria Guanabara. Um lugar clássico dos anos 80. E lá a gente estava conversando com o Tavinho Paes, que é o outro poeta que escreveu parte da letra. E o Tavinho contou a história para a gente que a letra tinha sido feita originalmente ali no Guanabara, quando veio um casal de paulistanos e começaram a discutir. E a garota ficou mandando a letra para o cara, falando "você está me fazendo de otária?Fica saindo com seus amigos, não sei o quê." E no rádio, no momento, estava tocando qualquer música...

Rodrigo: uma radinho AM na Guanabara (Pizzaria), nos anos 80... Eles lá tinham umas caixinhas de som que ficavam tocando um radinho AM... Normalmente música brega.

Bianca: E o Tavinho estava na mesa do lado, ouvindo essa discussão do casal e ouvindo o rádio. E aí no rádio blah, blah, blah... E o casal brigando...

Rodrigo:  e a música de rádio brega tocando no rádio (tipo) "eu te amo...".

Bianca: e como ele contou que a música tinha sido feita originalmente para uma mulher cantar e depois eles mudaram. Lógico, para o Lobão cantar. E aí a gente regravou no feminino e com a concessão de um dos autores.

Dogzsongs: muito legal essa história. E gente, como vocês conheceram o fausto Fawcet?

Bianca: Ele foi num show do Pólux, que era a banda que eu o Rodrigo tínhamos antes do Leela e ele me viu tocando guitarra. No fim do show ele veio falar: "Olha, quero fazer um projeto. Queria que você tocasse guitarra." Na época eu não conhecia o Fausto. Eu só tinha idéia de que o Fausto era aquele cantor/compositor que tinha um monte de loura dançando. Eu já fiquei logo assustada. (Eu pensei) Não vou dançar! Mas ele é um doce de pessoa. E ele queria fazer uma parceria musical. QUeria que eu fosse guitarrista dele. E a gente fez umas músicas. E rolou tão legal a vibe que a gente chamou o Fausto depois para compor canções com o Leela. No primeiro disco a gente tem até a participação dele no "Último Jantar", que ele tem uma fala no meio da música. E no primeiro disco temos três músicas em parceria:"Romance Fugitivo", "O Último Jantar" e "Qualquer Um". E agora, no Pequenas Caixas, a gente tem umas quatro (músicas) em parceria: "Amor Barato", "Um Bejo Pede Bis" e "Delírio".

Dogzsongs: e vocês eram uma banda punk?

Bianca: o Pólux era bem punk e underground. Eu formei a banda com a Eva. A gente era uma banda de meninas.E o Rodrigo entrou depois, porque a gente era muito ruim, para dar uma arrumada na casa. Mas gente tinha garra, tinha vontade, queria fazaaer som. Eu queria me expressar e ter minha vida. Mas acabou que cada uma foi para um canto e a banda se desfez. Em 2000 o Rodrigo já tocava no Pólux há três anos e, com o término do Pólux, a gente falou, vamos seguir. E aí eu e o Rodrigo, a gente formou o Leela.

Dogzsongs: e aí vocês saíram da veia punk?

Rodrigo: a banda, o núcleo, éramos nós três: eu, a Bianca e a Eva, que hoje em dia é a Madame Mi. Sabe a Madame Mi? Que tem um projeto de música eletrônica...

Dogzsongs: não.

Rodrigo: para você ver, a música eletrônica era bem diferente da gente. Então já estava rolando uma espécie de conflito musical.

Bianca: então ela saiu para fazer esse projeto eletrônico e a gente falou, vamos fazer uma coisa mais Rock'N'Roll. Depois de três anos a gente tinha aprendido a tocar um pouco. Então a gente parou de ser três acordes e punk gritado para fazer um refrão, um estrofe, uma terceira parte...

Dogzsongs: o Fausto Fawcet chegou a falar que vocês são o orgulho da cena alternativa do Rio. Mas como está a cena carioca agora? Vocês se mudaram, estão em São Paulo agora. Do Rio, a gente ouve muito de Samba e Funk. É o que chega aqui. Parece que o rock está meio deixado de lado?

Rodrigo: a gente falar disto estando de longe é difícil, mas a impressão que dá, em relação à época em que  a gente estava lá, com a cena fervilhando, é que realmente o negócio deu uma esfriada. É porque é difícil, né. A recompensa de se trabalhar para caramba e não ganhar nada... No Rio é muito difícil você fazer rock. Lá tem todos esses movimentos. Você (também) tem a preocupação com a violência na cidade. Então tem várias casas que fecham porque o público não vai. E aí não toca no rádio. Não faz parte do que vai... O Funk, e o Samba, que a cidade tem uma atração, assim tipicamente carioca. Então acho que o rock está um pouco em baixa lá no Rio, apesar de ter várias bandas novas, (como) Do Amor...

Bianca: mas é um rock mais MPB. Não é um rock mais Punk, Hardcore ou Alternativo. Uma galera mais ligada à MPB.

Rodrigo: deu uma esfriada, mesmo...Tem as bandas de hardcore melódico.

Bianca: tem a banda da Débora, baterista.

Rodrigo: a Escracho. Não sei como você define, se Emo, Hardcore Melódico. São bandas nesses estilo, For Fun, Escracho...

Bianca: mas a gente se mudou se mudou para São Paulo justamente procurando uma cena rock mais forte, porquea no Rio a gente estava se sentindo até meio isolado, porque a gente já tinha tocado em todas as casas, várias vezes, já tinha público, mas a gente queria ampliar isso. E a gente tendo que gravar o segundo disco e a nossa gravadora e o empresário eram em São Paulo, aí ele falou, deu uma força, falou "galera, vem para São Paulo gravar o disco e dá um tempo. Passa uma temporada." E a aí a gente pôde. E curtir essa experiência de estar numa nova cidade para a nossa carreira e para a nossa vida é interessante. Mudar os ares, mudar um pouco, ver outras realidades, conhecer outras pessas, ouvir outras opiniões, sugestões, idéias. E isso acho que acaba enriquecendo a nossa composição para os próximos álbuns.

Dogzsongs: então vocês estão achando São Paulo bem mais Rock'N'Roll...

Bianca: com certeza. Bem mais Rock'N'Roll. E bem mais frio! Muito gelado!

Rodrigo: São Paulo tem mais gente.

Bianca: lá não tem a praia. Então a galera gosta de ir à barzinho à noite e ver show de rock.

Rodrigo: tem muita gente. Mas também tem muita gente que vai para lugar de samba. Lá tem Samba-Rock...

Bianca: muita gente o tempo inteiro. Até feriado.

Rodrigo: (São Paulo) é muito maior e tem essa coisa urbana muito forte. No Rio já tem o contraste entre a natureza e o urbano.

Bianca: o que acaba despertando...

Rodrigo: no Rio tem essa coisa própria do Rio, o que não favorece tanto o Rock'N'Roll.

Dogzsongs: e a mudança de gravadora? Vocês estavam na EMI agora estão na Universal. Na EMI vocês trabalharam com o Rick Bonadio, que é muito conhecido na cena pop brasileira. E agora quem vocês escolheram?

Rodrigo: o primeiro disco foi lançado pela EMI e produzido pelo Rick. Depois a EMI interrompeu um pouco o processo de divulgação. Todos os artistas lá tiveram problema. A diretoria da época saiu toda da empresa. Um rolo de proporções internacionais. Rolou um desfalque lá. E o Rick (Bonadio) era o nosso empresário e ele vendeu o selo que ele tinha para Universal e falou "vamos lá lançar pelo selo".Lá nós fomos. E ele falou "vamos para São Paulo.", tem tudo aqui que a cena oferece. Quando saiu o disco, as coisas não estavam muito acontecendo na indústria fonográfica e a gente teve um reunião com ele. Ele falou "eu não estou conseguindo trabalhar vocês, não estou conseguindo fazer as coisas com vocês." Aí a gente saiu e procuramos outras pessoas. Aí encontramos nosso parceiro da Nikolay Produções, com o Edgar (da Nikolay Produções), mas o disco foi produzido também pelo Rick.

Bianca: e a gente continua na gravadora Universal. O segundo disco saiu por ela.

Rodrigo:  o futuro, a gente não sabe... A gente não tem nem as músicas

Bianca: a gente vai começar agora a compor o próximo álbum. Então a gente vai ver depois como é que vai ser. A gente tem no contrato mais dois ou três discos com eles. Mas, também, se não for para trabalhar, a gente prefere procurar algum outro parceiro do que ficar preso.

Dogzsongs: com certeza. Então, sobre o terceiro álbum, você ainda não têm idéia...

Bianca: a gente vai começar agora, no fim do ano, a compor. Também, a gente estava. A gente lançou o Pequenas Caixas e a gente fez um "troço" para o lançamente. O "troço" ocupou muito o nosso tempo, porque o nosso "troço" era realmente um "troço". O que fazia parte do "troço"? Era um videoclipe da música "Pequenas Caixas". Era um videoclipe como se fosse um videogame e, dentro desse videogame, onde nós somos os personagens, enquanto a gente está passando por várias fases até chegar no show, aparecem vinte códigos alfa-numéricos que você precisa digitar no YouTube ou no Google e eles te levam a vinte e nove conteúdos exclusivos da banda. Vinte vídeos nosso. E dentro de cada um desses vídeos tinha promoções inusitadas. As promoções terminaram agora, nesse mês, nessas promoções a gente distribui violões, amplificadores e até uma scooter, uma moto, para a vencedora principal.Além do clipe, como todos esses prêmios, todas essas idéias, a gente fez um fliperama que a gente leva para os shows. A gente não trouxe para Brasília, porque o transporte é difícil, mas para São Paulo e para o Rio a gente leva esse fliperama. Hoje a gente trouxe um projetor, que passa imagens durante o show e, no meio da música Pequenas Caixas, a gente chama alguém da platéia para ser desafiado a jogar o game no telão enquanto a gente toca a música.

Dogzsongs: muito legal!

Bianca: e aí, se a pessoa ganha, ganha um brinde da banda. E, além disso, a gente também fazia projeções no meio da rua de São Paulo e do Rio, projeções do videoclipe. A gente levava um PA, levava o projetor e PAH! Aí a gente ficava com essa projeção e pocket shows em escolas. A gente fazia na hora do recreio, 8:30 da manhã. E aí a gente fez esse circuito que foi o maior barato, porque a gente teve de novo esse contato com o público, porque a gente tinha passado o ano de 2006 compondo e aí acabou se distanciando um pouco do público, o que é ruim.

Dogzsongs:quais as diferenças entre o primeiro cd e o segundo cd? Diferenças artísticas. Como vocês acham que foi a evolução?

Rodrigo: o primeiro disco está bem mais dançante que o primeiro. O primeiro é bem influenciado pelo rock alternativo dos anos 90, já o segundo tem um pouco desse espectro sonoro... As letras também já variaram um pouco além de falar sobre relacionamentos dos tempos atuais.

Dogzsongs: é uma temática bem constante...

Rodrigo: é uma temática bem constante. Deve continuar a ser ainda, mas a gente também falava sobre mudanças e transformações que a gente estava passando. A gente tentava colocar um pouco daquilo ali nas letras. Mas a letra sempre acaba virando uma outra história. Na hora que a gente fazia a música ela sempre transforma aquilo ali numa coisa única.

Dogzsongs: qual foi o melhor show que vocês fizeram?

Bianca: tiveram alguns ótimos shows. Um deles foi no Pacaembu para cinqüenta mil pessoas. A gente abriu para a Avril Lavigne, o que foi arrepiante. A gente pôs os pés no palco e viu aquela galera gritando, o que foi ensurdecedor. No festival Ceará Music, em Fortaleza, foi também sensacional. Porque a gente estava no Palco 2, e no show antes do nosso estava vazio o palco. Aí a gente entrou no palco e estava lotado! Nossa, foi incrível! A galera cantou todas as músicas! O nosso maior fâ-clube é l, em Fortaleza. E a gente voltou depois lá, com o Kid Abelha.

Rodrigo: em Recife, também. Em São Paulo, também, em agosto, no aniversário da Bianca. Várias participações de amigos tocando juntos.

Bianca: foi um show bem diferente, inusitado, e muito, muito divertido, porque a gente chamou vários amigos. Porque eu queria comemorar o meu aniversário em grande estilo. E a gente tinha esse show marcado no dia 2 de agosto. O meu aniversário é no dia 4, aí eu falei "vou chamar os amigos para fazer uma festa no palco."E aí tivemos a participação da Vanessa, do Ludov, do Mauro, e teve o pessoal do Fresno, o Tavares e o Luca. A Madame Mim, as garatas do Lipstick. Teve até o Billy, guitarrista do Biohazard. E eu sou megafã de Biohazard!

Rodrigo: a gente conheceu o cara e levou Black Sabbath.

Dogzsongs: Black Sabbath?

Bianca: alguns desses shows a gente está começando a postar no YouTube oficial da banda. Acho que lá já tem o "Te Procuro" e a música que a gente fez com o Lipstick, que é "Killing In The Name." Teve Dominatrix (nesse show). Teve a maior galera! teve um momento que as garotas subiram todas no palco para cantar parabéns. Levaram bolo e a gente cantou B 52's. Foi super legal. A gente vai postar todos esses vídeos lá.

Rodrigo: no papolog já tem todos.

Bianca: jura?

Dogzsongs: qual é o endereço eletrônico do papolog?

Bianca: www.papolog.com.br/leela

Dogzsongs: e o que vocês acham dessa onda de baixar música pela internet? Tem um lado bem positivo, porque a gente tem acesso a um tipo de música que, às vezes, a gente não teria de outra forma. Há uns dez anos atrás, por exemplo, para você ter acesso a um artista novo, você tinha que comprar o CD ou então conhecer alguém que tivesse comprado.

Bianca: ou ler uma resenha.

Dogzsongs: mas tem um lado negativo também. Todo executivo de gravadora fica falando que está levando uma facada pelas costas e está levando um bruto prejuízo.

Rodrigo: Isso.

Dogzsongs:agora, na prática, qual é a visão do artista? A gente só conhece a do executivo da gravadora e a do consumidor.

Rodrigo: para a gente, realmente, em termos de mercado, prejudicou. A gente era uma banda que vinha numa ascenção de popularidade e a gente precisava ser melhor trabalhado pelos nossos parceiros, pelas gravadoras. As duas gravadoras que a gente teve. E não fomos trabalhados por causa dessa crise toda que acabou e enxugou a verba para todo mundo e a gente acabou não tendo verba para trabalhar como deveria. Para artistas que já haviam se estabelecido, isso não prejudicou tant, porque os investimentos já estabelecidos nesses artistas no modelo de negócios anterior da indústria fonográfica. Eles continuaram a ter investimentos. Eles já tinham um público formado. Agora, como artista, em termos de criação, e em termos de chegar e falar com o fã diretamente e fazer o som chegar nas pessoas, é fabuloso. Se pensar que vinte e cinco anos atrás, para você registrar a sua música, gravar a sua música, você precisava ter uma gravadora, porque a gravadora gravava a sua música. E aí, (com a) revolução digital, os pequenos estúdios conseguiram condições técnicas para gravar excelentes discos. As gravadoras venderam os estúdios que elas tinham. E aí depois tinha "você precisa ter uma gravadora para distribuir e fazer o seu cd chegar na loja e divulgar a sua música no rádio". Agora acabou tudo isso. Não precisa ter uma gravadora que prense, lance seu CD. Você pode colocar um link que todo mundo tem a chance de ouvir. Só que, para massificar, para se fazer conhecido, é muito mais difícil.

Dogzsongs: as gravadoras têm um esquema que acaba prejudicando o artista iniciante, que é o Jabá.

Bianca: eles escolhem um artista que eles querem massificar e você fica restrito a isso.

Rodrigo: no rádio mesmo tem esse investimento aí. E já é uma coisa institucionalizada. E foi uma coisa que, nos anos 90, quando as gravadoras começaram a ganhar muito dinheiro, começaram a colocar muito dinheiro nas rádios e o pessoal de rádio se acomodou e passou a só tocar o que recebe, mesmo, o que paga. E não tem como furar esse esquema, esse bloqueio. Até hoje a rádio, que é o veículo mais importante, ainda, aqui no Brasil, para divulgar música, você ainda tem esse gargalo que é a dificuldade de você divulgar música em rádio.E as gravadoras criaram esse círculo corrupto e vicioso. Elas estão se dando mal por causa disso. Elas não tiveram condição de manter esse investimento em rádio e, com isso, tiveram que diminuir o número de lançamentos e aí diminui também a margem de lucro, a chance de acerto deles. Mas na luta contra os downloads, contra a questão do Napster (nota da redação: primeiro programa de Downloads na internet. Durou cerca de dois anos antes de ser fechado pela RIAA-Recording Industry Association of American Artists), elas deveriam ter sido mais rápidas e visionárias e tiveram a chance de ver que, naquele movimento, se eles tivesses tido a chance de fazer uma coisa institucionalizada, como a Apple, e começassem a vender música on-line já há seis anos atrás, não estavam tomando esse prejuízo que hoje em dia eles ficam choramingando, contando que têm que ir atrás do prejuízo. Falta muita visão para o pessoal que trabalha no mercado fonográfico.

Dogzsongs: eu entendo. E vocês acham que isso vai melhorar? Será que eles vão mudar de atitude e vão começar a investir mais no artista para deixar de investir na venda da música, isto é, vender o artista, vender o show do artista?

Bianca: acho que o mercado está em transformação. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer e fica todo mundo com medo de dar um passo e não ter sucesso nesse passo. Então está todo mundo ainda trabalhando no esquema antigo, mas fica ligado nos modelos novos, que também tem que estar na internet, fazer um site super lega, interligado, mas ninguém sabe exatamente... Ninguém tem ousadia.

Rodrigo: acho que essa ousadia vai vir dos artistas, dos empresários, dos produtores, para que fique uma coisa pulverizada, como o Radiohead fez. Só eles poderiam fazer aquilo ali e dar tão certo quanto deu.

Bianca: que eles já tiveram todo o poder e todo o investimento.

Rodrigo: ainda não vi nenhum artista se estabelecer de verdade fora do esquema da indústria fonográfica. Não tem um. Todos que conseguiram fazer ações fora vieram dessa época.

Bianca: mas toda essa discussão acho super saudável, porque o modelo de como é trabalhado um artista no Brasil não é legal. Não é bom. Tem muita gente que poderia ter um espaço maior do que tem. De ter essa discussão e de as pessoas quererem buscar novos caminhos e novas alternativas acaba criando novos públicos. A Fresno tinha um público já que já tinham feito na internet. Os Móveis Coloniais (de Acaju). E outras bandas que têm...

Dogzsongs: os Móveis não têm gravadora. Agora, só mudando um pouco aqui, e a questão do machismo no Rock? Normalmente a gente sempre vê banda de homem com homem cantando. Como é lidar com isso?

Bianca: rola isso direto...

Dogzsongs: é aquela sensação de que tem que ser dez vezes melhor que um homem para se manter?

Bianca: quando você sobe no palco as pessoas já ficam querendo reparar na sua roupa, se você toca bem, se você vai desafinar. Como mulher, tem uma cobrança muito maior que os caras, que sobem no palco e desafinam, e tocam mal, e todo mundo "YEAH! Rock'N'Roll demais! "Entendeu? O cara tem atitude, e a mulher faz qualquer coisa errada e pronto, já é tachada de incompetente.

Rodrigo: "tem que ser groupie"...

Bianca: eu já toco há onze anos. Que eu toco guitarra, que eu tenho banda. E eu acho que, hoje em dia, tem muito mais garotas tocando, colocando a cara a tapa, formando uma banda e correndo atrás. Então acho que o público já perdeu um pouco desse preconceito. Tem um pouquinho, no fundo, mas acho que cedeu bastante.

Dogzsongs: e garanto que a galera do punk , na época do Pólux, tinha mais preconceito.

Bianca: tinha. A gente, quand chegava nos festivais, todo mundo achava que nós, as garotas da banda , que a gente era groupie e estava lá para tietar os caras e na hora que eles viam a gente no palco falavam "caraca! Aquelas meninas que estavam ali! A gente achava que vocês fossem groupies e todo mundo o maior Rock'N'Roll, Punk no palco!

Dogzsongs: e com relação à temática da banda. A questão das desilusões, dos amores é constante. Vocês falaram que mudaram um pouco no segundo disco. Agora o terceiro vocês ainda estão planejando.

Bianca: as letras acabam refletindo o momento das nossas vidas, com as pessoas ao nosso redor, com a gente mesmo, internamente. Questões que acaba tendo. E isso também, é óbvio, acaba mudando de acordo com os anos. Você tem uma visão diferente do mundo. Você se vê colocado num ambiente diferente. Agora a gente está em São Paulo, que é um outro clima, uma outra vibração. Diferente do Rio... A gente ainda não começou a escrever, mas eu sempre anoto idéias e pensamentos em cadernos espalhados pela casa  e eu nunca leio. Só na hora de sentar para para fazer a música é que eu pego os cadernos e vejo o que realmente estava se passando na minha cabeça nos momentos. E aí a gente pega esses trechos e começa a compor a letra, a partir de todas essas coisas que eu venho escrevendo ao longo dos anos.

Dogzsongs: e você vai aparecer na Nickelodeon?

Bianca: eu apresento um programa na Nickelodeon, que é o Nickers, e ele é de segunda à sexta, das seis e meia às oito. E eu apresento esse programa com outros dois (apresentadores). Somos três apresentadores , eu sou a única menina. Já tem um ano e quatro meses no ar, o que é ótimo . A gente está curtindo porque é um outro mundo. Um mundo de TV, que é diferente do de música, mas que, no fundo, acaba sendo a mesma coisa.

Dogzsongs: é um trabalho totalmente diferente da banda.

Bianca: é um trabalho independente da banda. Eu fui chamada para apresentar o programa, fiz um teste. Eles gostaram e eu estou lá apresentando . Mas eles dão uma força para o Leela. O Leela toca lá no programa . O videoclipe toca.

Rodrigo: antes de você ser apresentadora a gente já estava .

Bianca: é a gente já estava . A gente foi em 2005 no canal. A gente tinha concorrido banda, clipe revelação.

Dogzsongs:muito legal. E você vai entregar um prêmio?

Bianca:todo o ano tem os prêmios Nick, que é a premiação do canal e , ano passado, nós (Bianca, Dinho e HD, apresentadores do Nickers) fomos os apresentadores de todo o prêmio. Tem o site Nickers.com.br, se você quiser saber mais...E , esse ano, eu e os Nickers, a gente entregou o prêmio em algumas categorias. Aconteceu em São Paulo, Rio e Porto Alegre. Aí a gente entregou os prêmios e eu toquei uma música do Franz Ferdinand com o Fresno. Toquei e cantei. E essa premiação toda vai passar no dia 26 de setembro , às oito da noite, na Nick.

Dogzsongs: é isso aí gente, e o show agora (nota da redação: show do dia 20/09) ?

Bianca: a gente está super animado para tocar . Faz muito tempo que a gente não toca aqui em Brasília.

Rodrigo: é o primeiro show com o disco novo. É o primeiro show com o PH Holmes, que é o nosso novo batera, que já tem um ano que está na banda. Um ano e meio, né?

Rodrigo: não, vai fazer um ano.

Bianca: fez um ano e a gente nem comemorou.

Rodrigo: um show com o repertório do disco Pequenas Caixas. Então vai ser especial.

Bianca: a gente trouxe o game. Trouxe a projeção.

Dogzsongs: só não tem o fliperama.

Bianca: é um arcade gigante. Pesa toneladas.

Dogzsongs: vai ser muito legal. Muito obrigada pela atenção de vocês todos. Eu vou colocar isso tudo no site.