, Untitled Document

QUINCY JONES E O PASSADO DA INDÚSTRIA MUSICAL

Autora: Ana Luiza Brown

Eu cresci nos anos 80. Naquela época a música pop era de qualidade, a economia no Brasil era um lixo, mas a gente tinha esperança.

A música boa ecoava por todos os lugares, fossem as notes iniciais de Sweet Child O’Mine, do Guns’n’Roses, os acordes sofridos da Tracy Chapman ou as letras quase espirituais do Legião Urbana.

Acho que a indústria musical era mais saudável naquela época. Então não havia pseudo- cantoras que se passassem por hermafroditas para vender mais discos ou ingressos para shows. Para quem não sabe, a cantora Lady Gaga apareceu recentemente em um festival exibindo um par de testículos. Talvez fingir o hermafroditismo seja a solução para uma artista feia e medíocre chamar a atenção da mídia e tentar compensar a falta de talento e beleza...Nos anos 80, isso não colaria para esconder a falta de graça.

Pois bem, naquela época quem reinava nas paradas era o Michael Jackson, sempre muitíssimo bem produzido pelo mago Quincy Jones. Sei que já falei muito sobre ele, mas, hoje, dia 15 de setembro, fui obrigada a escrever sobre sua morte e seu legado novamente.

Eu já havia colocado nesse site as minhas impressões sobre a morte de Michael, bem como defendendo ele de acusações infames e infundadas feitas por estelionatários. Achava que já tinha falado tudo que tinha que falar. Foi quando li a entrevista de Quincy Jones para o jornal espanhol El Pais, em que o produtor dizia que Michael não era tão talentoso assim, nem jogava no time de grandes artistas como Ray Charles, Aretha Franklin, Louis Armstrong, Billie Holiday ou Frank Sinatra.

Para quem não sabe, Quincy Jones é um produtor musical da pesada, que já ganhou dezenas de Grammys e trabalhou com vários artistas consagrados, dentre os quais aqueles que ele citou em sua entrevista.

De primeira, fiquei chocada com a comparação ridícula. Como se pode comparar um cantor/compositor de Pop Music com uma cantora de Jazz que teve seu auge nos anos 30 e 40? Como comparar um tenor (Jackson) com um barítono (Sinatra), sendo que ambos eram ótimos nos seus próprios estilos? Comparar o Michael com essa galera era o mesmo que comparar tomate com abacaxi, ou o Pelé com o Michael Jordan. Não dá para falar se um é melhor que outro, pois são muito diferentes.

O Quincy Jones tinha comparado o Michael Jackson com artistas de outras eras e estilos completamente diferentes. Desses todos, a única que tinha algo a ver com o Michael era a Aretha Franklyn. Mas comparar Aretha com o Michael é demais, não é? Até porque a Aretha é uma grande e maravilhosa cantora, é mulher com M maiúsculo e canta música de mulher, e não música para voz de homem. Ela é a rainha do Soul, Michael era o Rei do Pop. Compará-la com Michael seria o mesmo que comparar Maria Callas com Pavarotti. Não dá.

Depois, parei para pensar e cheguei a uma primeira conclusão: Quincy Jones é músico de Jazz. Nessa própria entrevista ele fala que sempre foi músico de Jazz.

Pois bem, toco guitarra há uns vinte anos. Sempre toquei coisas simples, tipo rock, pop, blues, metal e, no máximo, MPB. Minha escola foi meu ouvido.

Músicos de Jazz falam uma linguagem diferente. Para eles, a música TEM que ser complexa. Acordes têm que ter notas dissonantes, uma música NÃO pode ter uma só tonalidade e o improviso fica acima de tudo, até mesmo da estrutura de uma canção.

O Jazz instrumental é assim, você pega uma idéia e faz todos os improvisos possíveis sobre ela. A construção de uma idéia que tenha significado eterno, como o tema da nona do Beethoven, perde o significado em face do que realmente importa: o improviso.

Uma vez peguei uma gravação do Miles Davis, ao vivo, que tinha quarenta minutos. Pode imaginar isso: uma música, que não seja uma sinfonia completa, com quarenta minutos? Pois é, Jazz é isso. Música para músicos. Seja músico e entenda o Jazz, fale a linguagem Jazz, entenda tudo dos modos gregos (agora estou falando de teoria musical), saiba improvisar sobre os acordes mais malucos... Saiba mais música do que qualquer um. Se você souber tudo isso, você é da elite, você um FODA. Você é um músico de Jazz.

No fim, isso é Jazz: uma linguagem para iniciados, inalcançável para meros mortais ou músicos pop.

Logicamente que o Jazz cantado é mais calcado em melodias que viram canções, isto é, em idéias musicais marcantes, mas isso só ocorre porque não dá para o instrumentista “pirar” muito em improvisos quando tem o cantor por perto. Quem chama mais a atenção é SEMPRE o cantor ou cantora. Os saxofonistas e guitarristas têm que se contentar com isso.

 Conheço bem a galera do Jazz, embora a linguagem desse tipo de música nunca tenha sido acessível para mim. Sou uma guitarrista metida a cantora que nunca estudou em conservatória nem entendeu harmonia Jazz.

O músico de Jazz é aquele cara que acha tudo que não seja Jazz simples demais. O que vale a pena é só o Jazz.

Daí eu entendi mais ou menos o que o Quincy Jones queria falar: a linguagem do Michael Jackson nunca foi Jazz. Então, na cabeça do Quincy, Michael não era tão bom quanto os outros, os “fodões”, os cantores e cantoras de Jazz. Se bem que a Aretha é cantora de Soul. Ela é a rainha do Soul e o Michael é o Rei do Pop. Mas parece que o Quincy Jones não se lembrou disso.

Tecnicamente, Michael Jackson não ficava a dever nada para nenhum dos citados. Ele foi um grande tenor de música popular que alcançava notas agudas de contratenor, enquanto que Sinatra foi um grande barítono.

Quanto à menção à Billie Holiday, fiquei sem entender. Pela idade de Jones, ele deve ter trabalhado com Billie quando ela já estava em franca decadência e deterioração física. Sua voz ainda era linda, mas nada que se comparasse aos seus anos de apogeu, nas décadas de 30 e 40. Billie era viciada em heroína e o vício foi acabando com ela aos poucos.

Depois pensei o seguinte: Quincy Jones é um cara das antigas. Daí cheguei à minha segunda conclusão: Quincy representa a indústria musical do século 20.

Ele representa a indústria antiga, em que uma linguagem era considerada superior às outras e em que o artista não valia mais do que o disco de vinil em que a música estivesse gravada.

Olhei para a foto daquele cidadão idoso, que tanto já fez pela música, li suas observações sobre a pirataria ( ou o que os americanos chama de “bootlegging”) e vi que ele era um cara das antigas, preso a um modelo antigo.

O modelo antigo, que eu falo, é o modelo de venda de discos, em que não importa tanto a informação, mas sim a mídia em que ela está impressa. O artista, nesse modelo antigo, é só uma voz ou uma foto na capa. Daí eu entendi mais profundamente ele achar Sinatra melhor que Jackson: Sinatra não era compositor, nem Billie Holiday era compositora. Já Michael era compositor.

Um compositor é uma cara que pensa diferente do performer. A música, para o compositor, é sua filha, “sua criança”, um pedaço dele. As pessoas que compõem têm ciúmes de suas “crianças” e, normalmente, enchem o saco para ter mais controle sobre sua obra. Michael Jackson tanto quis ter poder sobre sua obra que conseguiu. Ele detinha o direito de Autor de suas música, ao invés de sua gravadora detê-los.

Um performer não vai encher o saco para ter controle sobre nada. Não foi ele que escreveu, então ele não tem nem possibilidade de ter direito autoral sobre a música. Aqui no Brasil tem um negócio chamado direito conexo, que é o do intérprete, mas disso eu falo depois. Mas, normalmente, quem tem controle sobre a música, mesmo, são a gravadora, o editor e o compositor.

Michael era um compositor “fantástico” ou “amazing”, nas próprias palavras do Quincy Jones (pelo menos era assim que ele pensava há alguns anos). Então, um compositor é um carinha que dá nos nervos dos produtores e executivos. O compositor é um carinha que acha que o pai do “bebê”, e o “bebê” é a canção. Engravatados não gostam disso, eles querem o controle todo para eles.

Olhei novamente para a cara desse senhor idoso chamado Quincy Jones, que tanto já fez pela música, vi sua arrogância ao dizer que nunca tinha tido nenhum ciúmes de Michael Jackson, vi como ele afirmava que Michael não era tão talentoso assim, e entendi tudo.

Quincy Jones é o passado da música. Devemos reverenciá-lo pelo que ele já fez, mas a indústria mudou. Ninguém tem tempo para ouvir 30 minutos de improviso num solo de Jazz. A vida é muito corrida, a informação precisa chegar rápido, e a música é de graça. Você ouve o que quiser, em qualquer lugar do mundo.

Para falar a verdade, Michael foi tão grande quanto cada uma das pessoas que Quincy citou, até porque ele criou um estilo próprio, com o auxílio do próprio Quincy Jones, e depois seguiu sozinho, mas sempre fazendo boa música. Quem duvida do que eu digo deve ouvir Earth Song e Morphine, ambas feitas sem Jones.

 Morphine é quase Heavy Metal e é profundamente influenciada por Nine Inch Nails. Para quem não se lembra, Nine In Nails era o que de mais inovador havia nos anos 90. O som desse cara (Trent Reznor, dono do Nine Inch Nails) é tão de vanguarda que, até hoje, ninguém conseguiu fazer nada que se comparasse. Pois é, Michael fez Morphine, uma mistura de Nine Inch Nails com Rhythm’n’Blues que teria deixado Trent Reznor orgulhoso.

Talvez o que tenha deixado Jones tão puto tenha sido o fato de seu pupilo ter batido as asas e alçado voo solo, tendo lançado vários discos de estúdio sem seu auxílio. O que Quincy Jones não viu é que seu pupilo era como um filho. A gente cria os filhos para o mundo e para seguirem sozinhos, e não para ficarem na nossa sombra. Talvez essa seja a razão de Jones ter deixado seus preconceitos de “Jazzista virtuoso centrado somente em seu estilo” se aflorarem dessa forma nessa entrevista.

Sabe, acho qualquer atitude de achar um estilo de música tão superior aos outros grotesca (  a não ser que estejamos falando da anti-música funk carioca, mas aí já é tortura auditiva ). Há canções boas em música sertaneja, regional, baião e Jazz. Estudei um pouco de antropologia na faculdade e aprendi que achar que uma cultura é superior às outras é um erro. Heavy Metal PODE ser tão legal quanto Jazz. Uma música do Black Sabbath pode ter tanta profundidade quanto uma música do Cole Porter. Tony Iommi (guitarrista do Black Sabbath) é tão BOM quanto Django Reinhardt (guitarrista de Jazz cigano que só tocava com dois dedos). Tudo isso não é difícil e ser entendido. É só abrir o coração e os ouvidos. Pensar na música e se deixar levar por ela.

Senhor Quincy, Michael era tão grande quanto cada um dos artistas que o senhor citou. Fico imaginando o que o senhor pensa de nós, fãs de rock clássico, ou até da dona de casa que só ouve música simples. O que será, então, que o senhor pensa do Elvis?

Música simples pode ser boa, senhor Jones. Uma música não precisa ter cinqüenta modulações para ser boa. O senhor tem uns 60 anos de música nas costas para saber disso. Será que eu, com meus meros 34 anos, acabo por saber mais que o senhor a respeito disso, ao não ter preconceitos com relação à música?

De alguma forma, a arrogância de Jones me lembra de um carinha, cujo nome não vou citar, que possivelmente é o melhor violonista do Brasil. Esse cara dá aula na UnB. Ele é o CARA, sabe tudo de violão. Estava eu pensando em ter aulas particulares com ele quando me falaram de um comentário dele: “o único compositor de música clássica de que gosto mais ou menos é o Beethoven. O resto é muito simples.”

Pois é, tem gente que gosta de Beethoven “mais ou menos” porque o cara não colocava espaço para improvisos gigantescos em suas sinfonias, nem colocava acordes que somente um violonista com dedos de octopus colasse em suas sinfonias. Fazer o quê?

Depois dessa, desisti de ter aula de vilão com o cara. Até porque AMO Beethoven.

Bom, só sei que vou continuar a ouvir meus CD’s do Whitesnake e do Blue Oyster Cult, afinal música simples também pode ser boa. Whitesnake da antigas pode ser tão bom quanto Billie Holiday. Blue Oyster Cult marcou tanto a música contemporânea quanto o bom e velho Nat King Cole.

Por fim, a indústria da música tem que mudar. Chegou a hora de valorizar os músicos e não a mídia em que as canções estão inseridas. E não vai ser colocando uma pseudo-cantora que finge ser hermafrodita, como a Lady Gaga, que a indústria musical vai se salvar.

seta>>clique AQUI para ler o que Quincy Jones falou<<

HOME