Resenha Jeff Buckley

  

    Realmente não recordo de como conheci Jeff Buckley. Para todos os efeitos, o seu CD apareceu misteriosamente nas minhas coisas em meados dos anos 90 (época em que realmente comprávamos cd's) e ficou por ali. Esse cd é constantemente maltratado por mim, pois o levo para todos os lugares e o coloco para tocar até mesmo no som do meu carro (não faça isso com cd's originais, pois pode arranhá-los!)

   O CD de que falo aqui é possivelmente a melhor obra de rock dos anos 90 (lamento, fãs de Nirvana, mas Nevermind é História enquanto que Grace transcendeu a História e virou Magia). O CD Grace foi o primeiro e único grave por Jeffrey Scott Buckley em estúdio e contém 10 músicas, sendo que a mais conhecida é a sua versão para Halleluja, de Leonard Cohen.

   Em todas as faixas, Jeff Buckley exibe exímia capacidade como cantor, guitarrista e compositor.

   A sua voz ia da suavidade de Lilac Wine, passava pelo sensualidade de Halleluja (que alguns consideram até melhor que o original) e chegava ao visceral de Grace. A penúltima música do CD, Eternal Life, composta por causa de um amigo com problema com drogas, chega a ser quase que um Hard Rock, especialmente por causa do peso da voz de Jeff.

  Um detalhe, embora Halleluja pareça ser uma música triste, ela é, na realidade, sobre sexo e contém diversas analogias entre relações sexuais e religião. “And she tied you to the kitchen chair/ She broke your throne and she cut your hair/and from your lips she drew an Halleluja” Tradução: e ela lhe amarrou à cadeira da cozinha/ quebrou o seu trono e lhe cortou os cabelos/ e de seus lábios ela lhe fez dizer Aleluia.” Bom, se isso não for sobre sexo, não posso imaginar mais sobre o que poderia ser. Aqui a analogia com o Sansão Bíblico é bem evidente, assim como o próprio nome da música, pois Aleluia é uma palavra de glorificação a alguma entidade divina.

   Quanto à voz de Jeff, ela facilmente ia do registro de barítono para o de soprano, alcançando, pelo menos, umas três oitavas. Possivelmente o seu talento vocal foi herdado de seu pai biológico, Tim Buckley, com quem Jeff teve pouquíssimo contato e que morreu quando ele tinha apenas 8 anos.

  Para quem não sabe, barítono é o sujeito que canta grave, mas nem tanto. Exemplos, no Rock, são o David Coverdale o Freddie Mercury. Soprano é o tipo de vocal feminino agudo. Exemplo: Mariah Carrey. Posso não gostar do som dela, mas ela canta muito.

  As influências de música oriental de Jeff Buckley também são bastante evidentes, especialmente do cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan , que cantava música sacra muçulmana. Parece doideira falar disso, mas Jeff realmente curtia muito o trabalho do cara, tendo chegado a entrevistá-lo pelo menos uma vez para uma revista especializada. Isso demonstra a sua visão global do que é música e qualidade musical. Muitos carinhas que fazem sucesso por aí nunca se dariam ao trabalho de ouvir algo que não estivesse na MTV.

  Jeff Buckley morreu enquanto se preparava para gravar um segundo disco, afogado no Wolf River, no Tennessee.

  Os responsáveis pelo seu espólio esclareceram que sua morte foi acidental, que ele estava em boa saúde física e mental até à data do óbito e que ele não tinha tomado drogas. Algumas pessoas gostam de pensar que Jeff teria se matado, pois isso daria a ele uma possível aura de “mártir torturado”, mas isso é bobagem. Jeff não se matou.

  Alguns fãs de fato ainda insistem em dizer que ele se suicidou e até ficam inventando possíveis doenças para ele. Eu cheguei a ver em algum lugar um fã dizendo que ele era bipolar (eu nunca tinha ouvido falar que ele era doente!).

  Na realidade, o que se sabe é que Jeff foi nadar à noite, depois de ter bebido, e que um barco a motor passou pelo local e revolveu as águas de forma que o impediu de voltar à superfície.

  A tragédia de sua morte não deixou de ser aproveitada pela sua gravadora, a Columbia, que lançou diversos CD's póstumos, muitos com sobras de estúdio.

  Desses trabalhos póstumos, possivelmente o mais legal é Sketches From My Sweetheart, The Drunk , que é um cd duplo contendo as músicas daquilo que viria a se tornar o seu segundo álbum de estúdio.

  Embora a gravação de Sketches seja bem crua, podemos perceber as diversas nuances da voz de Buckley e seu virtuosismo como guitarrista.

  Sim, amigos, ou você acha que virtuoso é só o Steve Vai? Jeff Buckley se mostra virtuoso em especial na sua versão de Back In New York City , do Genesis, em que ele recria TODOS os instrumentos da canção somente com sua guitarra. E OLHA QUE ESTOU FALANDO DE UM CLÁSSICO VIAJANDÃO DO PROGRESSIVO! O fato de Jeff ter recriado TUDO com somente voz e guitarra demonstra de forma inegável o seu virtuosismo. Não sou só eu que falo isso. A revista america Guitar World concorda comigo!

  Nós nunca chegamos a ver Sketches acabado, mas as músicas nele contidas são maravilhosas e valem a pena ser ouvidas.

  Há inúmeros bootlegs e pelo menos dois shows ao vivo disponíveis, sendo que, tenho certeza, o público brasileiro não vai se dar ao trabalho de procurar para comprar. De qualquer forma, as obras de Jeff nem mesmo foram lançadas oficialmente no Brasil, o que torna o preço de seus cd's inacessíveis para os fãs de rock de qualidade (bendito seja o mp3!)

  Putz, por que a Columbia não lança os cd's dele aqui? Vai entender cabeça de executivo de gravadora... Bom, mas como entender esse gente sem alma?

  Dentre os seus lançamentos ao vivo, vale a pena falar do Live At Sin-É . Para quem não sabe, Sin-É era um barzinho no Lower East Side, em Nova Iorque. Foi ali que Jeff, que tinha nascido na Califórnia mas não tinha nada a ver com a cena musical de lá, começou a sua carreira, tocando um monte de músicas suas e covers.

  Live At Sin-É é o Jeff puro e simples, sem banda, só voz e guitarra. Ele mostra o seu bom humor fazendo piada até com o Led Zeppelin, que ele adorava! Essas gravações são anteriores ao Grace, mas já mostram Jeff Buckley maduro, mostrando toda a sua capacidade.

  Infelizmente Jeff nos deixou numa noite de 1997. Ele teria se tornado uma estrela e vendido milhões de discos se tivesse vivido mais? Com certeza, sim. Além de talentoso, Jeff era inteligente e era dono de um rosto bonito, o que mostrava que ele estava destinado ao estrelato.

  Ele pode não ter vendido milhões de cópias em vida, mas, até hoje, passados mais de dez anos de sua morte, pessoas baixam suas músicas, compram seus cd's, e se emocionam com a sua obra. Não acredito que haverá pessoas ouvindo Britney Spears em dez anos...

  Por fim, o mundo ficou mais chato depois que Jeff Buckley foi embora. Mas, pelo menos, temos o legado de Grace para nos lembrarmos dele pela eternidade.

DISCOGRAFIA (fonte: Wikipedia):

ÁLBUNS DE ESTÚDIO:

Grace  ·

 

Sketches for My Sweetheart the Drunk  ·

 

Songs to No One 1991-1992

ÁLBUNS AO VIVO:

Live at Sin-é  ·

Live from the Bataclan  ·

Mystery White Boy  ·

 

Live À L'Olympia  ·

 

Live at Sin-é (Legacy Edition)

COMPILAÇÕES:

The Grace EPs  ·

So Real: Songs from Jeff Buckley

 

SINGLES:

" Grace "  ·

" Last Goodbye "  ·

" So Real "  ·

" Everybody Here Wants You "  

" Forget Her "  

" Hallelujah "