RUÍDO DAS MINAS, SEPULTURA E CAVALERA CONSPIRACY

 

 

           Fiquei mais de um ano sem renovar nada no site. Motivo: falta de tempo. Mas coisas interessantes aconteceram nesse início de 2012, que tem sido bastante movimentado, com quedas de prédios, naufrágios, e até mesmo a descoberta de que o Brasil se tornou um destino para imigrantes de outros países (o que me surpreende muito, pois eu aprendi Inglês aos 13 anos na esperança de crescer e me mandar para Nova Iorque).

            Uma das coisas que me aconteceram nesse movimentado ano de 2012 é que eu comprei o The Worst do Sarcófago, banda seminal do Heavy Metal mineiro. Isso me fez redescobrir o Sepultura, assistir ao documentário Ruídos das Minas, e a voltar a escrever resenhas.

            Pois bem, e redescoberta de uma banda que eu não ouvia há anos me fez lembrar de 1996, ano em que o Sepultura lançou o Roots.

            Na ocasião eu estava no auge da juventude e amava Heavy Progressivo, o que hoje a gente chama de Metal Melódico. Era a época do Awake do Dream Theater e eu só ouvia isso, acrescido de Queensryche e Fates Warning. Eu até curtia Sepultura, como qualquer fã de Heavy Metal brasileiro. Eu conhecia bem o Beneath The Remains ( cujo disco de vinil me havia sido emprestado por uma amiga do Ensino Médio), o Arise e  o CHAOS A.D.

            Todos nós tínhamos um profundo respeito pelo Sepultura, que havia sido a única a ter sucesso lá fora nos anos pré-internet. Nessa época a informação era mais difícil e não havia coisas como YouTube e bit torrents. Se o povo lá fora hoje acha que Brasil é Neymar, Lula e Michel Telo, na época eles achavam que a gente era só a Floresta Amazônica. E o Sepultura mostrava para os gringos que havia Metal no Brasil, o que nos deixava orgulhosos. Eles não apareciam no Faustão, mas o público do Rock em geral, e do Metal, especificamente, conhecia a banda e a respeitava como sendo a maior do Brasil.

            Pois bem, daí eles lançaram o Roots. Os americanos e europeus adoraram, mas a gente aqui do Brasil ficou meio boquiaberto por algumas razões justas. Em primeiro lugar: ele gravaram com o ícone da Axé Music Carlinhos Brown (que não é meu parente). Carlinhos Brown é um percussionista fantástico, mas ele consubstancia o que é a Axé Music. Ele era mais popular que Ivete Sangalo na época. Aliás, ele era bem mais popular que a musa do Axé. Carlinhos Brown era o Pop Mainstream mais anti-Metal que existia e aparecia em tudo que era programa de televisão, Faustão, Xuxa e o escambau. Ainda por cima, o Sepultura acabou por gravar o clipe de Roots em Salvador com a participação do ... Olodum! Para nós, fãs de Metal do período, isso foi um choque.

            Hoje é fácil olhar para trás e ver que a banda acabou por influenciar todo o NU METAL que surgiu depois com o Roots,  mas a gente não pensou assim na época. Nós, fãs de Metal brasileiros, estávamos chocados e sem saber o que pensar. Não faltaram pessoas para dizer que eles haviam traído o Heavy Metal.

            Deixa eu explicar: nos anos 90, se você ouvisse Metal, você NUNCA ouviria Axé. A não ser em casos extremos de rapazes que fizessem um sacrifício enorme por garotas de quem estivessem muito a fim, nenhum fã de Metal ouviria Axé. Assim, Sepultura com Carlinhos Brown e Oludum seria o mesmo que Dimmu Borgir e Miley Cyrus hoje em dia, ou Slayer com Shakira (se bem que esses daí tiveram o mesmo produtor numa época). Era algo que não dava para entender. Mas os gringos ADORARAM. Viram a percussão de Carlinhos Brown como batidas tribais e acharam incrível o clipe de Roots com o Olodum. O Sepultura começou a aparecer em tudo que é publicação de Rock Pesado européia e americana. Na época eu gastava minha parca mesadinha (não tinha salário, era só estudante) nessas publicações e via os gringos babando ovo para o Sepultura. E era sempre o Max nas capas.

            Max, de ícone galã do Metal, engordou e passou a ter um visual mais white trash, mais sujo, mesmo. Isso agradou ainda mais os gringos. Ele deu até uma entrevista para a Veja em que dizia que o pai-de-santo ou guru espiritual ou caboclo (não me lembro do termo bem) lhe havia dito que ele devia gravar com os índios no Xingu. Eu perguntei para uma pessoa próxima ao Sepultura na época se isso havia sido real, e o cara disse que não.

            Roots vendeu milhões de cópias, estourou, e o Sepultura alcançou reconhecimento internacional. Mas nós aqui no Brasil ficamos com o pé atrás. A verdade é mistura de Metal com Axé não era aprazível para a maior parte dos fãs de Heavy brasileiros.

            O Angra chegou a lançar o Holy Land na mesma época. Nesse álbum, o Angra misturava Metal, Prog e ritmos brasileiros de uma forma mais complexa que o Sepultura. De certa forma, a mistura do Angra me agradou mais que a do Sepultura, por que era algo mais orgânico e que tinha mais a ver com a estrutura da música. Além disso, eles não gravaram com ícones do Axé.

            Só para se ter uma idéia de como o Carlinhos Brown era considerado a antítese do Heavy Metal e do Rock, ele chegou a ser expulso do palco do Rock In Rio 3. Jogaram um monte de garrafinhas de plástico de água mineral no sujeito. Ele ficou revoltado e disse que o público do evento era criado a base de Toddy. Minha finada mãezinha, mulher muito astuta, chegou a comentar comigo: “garanto que o filho dele também é criado na base do Toddy.” Bom, não só é criado na base do Toddy, como o moleque curte Iron Maiden ( é verdade! ).

            O sucesso veio para o Sepultura e eles passaram a ser uma versão mais jovem e tropical do Slayer. Tudo estava ótimo para eles até que... Max saiu.

            Como?

            É sempre estranho quando o vocalista da banda sai no auge do sucesso, mas a explicação que nos foi dada foi a seguinte: Max era casado com a empresária da banda. O contrato terminou e o restante do grupo não queria renovar com a mulher do Max. Ele ficou puto e saiu da banda. Pronto. E só.

            Eu me lembro que estava indo ensaiar com um fã aguerrido de Sepultura naqueles dias. Tínhamos uma banda em que eu tocava guitarra e ele tocava bateria. Eu levei o jornal com a notícia e o cara quase que teve um troço.

            Max já tinha o projeto paralelo Nailbomb e formou o Soulfly, com músicos americanos. O Sepultura continuou com o vocalista americano Derrick Green, que tinha influência e jeito de vocalista de Hardcore.

            Não sei se o Soulfly faz o mesmo sucesso que o Sepultura. Acho que não. Só sei que o Igor Cavalera virou Iggor, começou a vender roupa, virou DJ, deixou o Sepultura e formou o Cavalera Conspiracy com o agora rotundo Max, que agora não consegue nem agitar no palco com seu aspecto roliço.

            Vi um vídeo do Cavalera Conspiracy com ambos e fiquei chocada. Max mal agitava, estava muito envelhecido e quase desdentado. Seus urros, sua voz, perderam potência e a dicção está afetada pela falta de dentes. Igor, agora Iggor, continua tocando muito, mas os outros músicos nada têm a ver com aquilo que foi a cena de Heavy Metal de BH, tão bem descrita no documentário Ruído das Minas.

            Há um vídeo no YouTube em que um envelhecido Max, aparentando ter uns 60 anos (ele tem só uns 40 e poucos) culpa, em parte, a esposa do Andraas Kisser pelo fim da banda. A história que ele contou era estranha. Dizia ele que seu enteado havia morrido, que ele e a esposa estavam em Donnington para o Monsters Of Rock pouco antes da tragédia, e que eles tiveram que voar imediatamente para casa, nos EUA. Ao chegarem lá, a esposa do Andreas já estaria fazendo todos os preparativos para o enterro do jovem para que o rapaz já houvesse sido enterrado antes de Max e sua mulher chegarem aos EUA.

            Achei a história esquisitíssima. Quem já perdeu parentes sabe que enterro não coisa rápida, questão de horas. Isso só acontece quando a pessoa já estava agonizando no hospital.

            Quando alguém morre de repente, vítima de violência ou de outra coisa, há necessidade de autópsia. No caso do enteado do Max, ele foi assassinado. É óbvio que os preparativos do enterro não seriam tão rápidos quanto uma viagem entre a Inglaterra e os EUA. Haveria investigação e um monte de trâmites burocráticos, além da necessidade de algum familiar reconhecer o morto. Estou ou não correta?

            Pois bem, achei essa justificativa do Max meio furada. Continuo acreditando mais na história que nos foi contada lá pelos idos de 96 e 97, aquela da não renovação do contrato.

            Só sei que Cavalera Conspiracy nada mais tem de brasileiro, que não aparenta ter nada mais com a cena de Metal de Minas. O Sepultura atual também é algo estranho. Algumas pessoas até curtem, muitas não.

            No documentário Ruídos das Minas, os músicos da cena de BH relatam que Sepultura mereceu fazer sucesso, mas que não abriu as portas para ninguém depois. Mais de uma pessoa fala: “eles abriram as portas, depois as fecharam atrás deles. Quando perguntados se havia outras bandas de Metal daqui, eles disseram que não”. Bom todo mundo também sabe que, quando a gravadora Roadrunner pediu a indicação de outra banda, o Sepultura indicou os Ratos de Porão (que nem é Metal! É ícone Punk/Hardcore). Por que não indicaram uma banda como o Overdose ou o Mutilator, que são bandas de Metal da mesma cena?

            Nesse mesmo documentário, o pessoal fica falando que o Sepultura aconteceu. Tenho que discordar. Da forma como falam, parece que o Sepultura chegou a um sucesso astronômico e que virou o novo Slayer ou o novo Metallica. Discordo. Os caras PODERIAM ter virado o novo Slayer ou o novo Metallica, mas não souberam administrar o  sucesso, se dividiram, e hoje participam de projetos independentes que não parecem ser tão bem-sucedidos.

            Só sei que fico com meus discos velhos. Prefiro as velharias do Beneath The Remains ao que hoje é feito por esse pessoal. E  não acho que colocar um berimbau ou um tambor diferente mostre influência brasileira. Sempre achei que a música brasileira fosse bem mais rica que o Axé, que é tão popular entre os gringos (Carlinhos Brown cobra uns 100.000 dólares por um show na Europa!).

            Recomendo também o documentário Ruídos das Minas. Muitas daquelas bandas são EXCELENTES e merecem mais crédito do que tiveram.
           

            A seguir, os vídeos...